O primeiro semestre de 2025 trouxe sinais animadores para o varejo brasileiro. Dados da consultoria Seed Digital mostram um aumento de 4,5% no fluxo de pessoas nas lojas físicas em comparação com 2024, o que sugere um reaquecimento da atividade comercial presencial. No entanto, a expansão do setor segue limitada por um obstáculo persistente: os juros elevados e o crédito caro.
Este artigo analisa o paradoxo atual do varejo: mais gente nas lojas, mas menos capacidade de crescer. A seguir, você vai entender por que isso acontece, quais são os impactos diretos nas operações de empresas de diferentes portes, e como é possível adotar estratégias para crescer mesmo com as dificuldades impostas pelo cenário macroeconômico.
A retomada do fluxo nas lojas físicas
Após anos marcados por restrições sanitárias e crescimento do e-commerce, o consumidor voltou a circular nos centros comerciais. Segundo especialistas, essa retomada está associada a:
- Fadiga digital e desejo de contato humano
- Adoção definitiva do omnichannel pelas grandes redes
- Agressividade promocional em datas comemorativas
- Aumento da sensação de segurança após a pandemia
Segmentos como moda, beleza e alimentação fora do lar lideram essa retomada. Em termos de vendas, a XP Investimentos estima um crescimento de 17% no segundo semestre.
O freio do crédito caro
Apesar do aumento da demanda, muitos lojistas não conseguem expandir seu negócio. Isso ocorre porque o sistema financeiro está operando com alto grau de seletividade. As razões incluem:
- Selic ainda elevada: mesmo com inflação sob controle, a taxa básica de juros permanece acima de 10% ao ano, encarecendo todos os tipos de financiamento, inclusive capital de giro.
- Insegurança fiscal: o embate entre Executivo e Congresso sobre medidas como aumento do IOF gerou instabilidade no mercado financeiro.
- Aumento da inadimplência: dados da Serasa Experian mostram que 71,4 milhões de brasileiros estão inadimplentes em julho de 2025. Isso afeta diretamente a concessão de crédito, tanto para consumidores quanto para empresas.
- Endividamento empresarial elevado: pequenos e médios varejistas estão com alto comprometimento da receita mensal em função de dívidas adquiridas durante a pandemia e refinanciadas com juros crescentes.
Evolução da Taxa Selic e da Inadimplência no Brasil (2021–2025)
A seguir, um gráfico que mostra a relação entre a taxa de juros e o aumento da inadimplência no país:
Essa correlação ajuda a entender por que o crédito segue restrito, mesmo com o aumento da circulação de consumidores.
Impactos diretos no varejo
Com o crédito caro e o consumo apenas moderadamente aquecido, o varejo enfrenta barreiras concretas para crescer:
- Dificuldade para repor estoques
- Redução no ritmo de contratações
- Cancelamento de planos de expansão ou novas unidades
- Diminuição de investimentos em marketing e inovação
De acordo com levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 63% das empresas do varejo afirmam que a falta de acesso a financiamento limita o crescimento em 2025.
Casos reais de superação
Mesmo diante das adversidades, algumas empresas conseguiram contornar a falta de crédito bancário tradicional. Veja dois exemplos:
1. Rede Ponto Certo (SP)
A rede de minimercados adotou um sistema de consórcio com outros lojistas do bairro para compras coletivas de fornecedores. Isso gerou economias de escala, descontos e redução de necessidade de capital imediato.
2. Loja Vila Fashion (MG)
A empresária optou por trabalhar com sistema de consignado com fabricantes locais de roupas. As peças só são pagas após a venda. Com isso, ela consegue manter o mix de produtos atualizado sem recorrer a financiamentos bancários.
O papel da inteligência comercial
Em um cenário de crédito escasso, a capacidade de tomar decisões com base em dados torna-se ainda mais essencial. A inteligência comercial ajuda a:
- Mapear produtos com maior giro e margem
- Antecipar demanda e evitar ruptura de estoque
- Planejar promoções com retorno real
- Negociar com base em dados de vendas e previsões
Ferramentas como BI (Business Intelligence), ERP com dashboards de desempenho e sistemas de controle de margem por SKU (unidade de estoque) são aliados poderosos.
Medidas governamentais e perspectiva
O governo lançou, em julho de 2025, o Plano Safra e o “Nova Indústria Brasil”, com previsão de injetar mais de R$ 500 bilhões em financiamento para setores estratégicos. Parte desse montante pode indiretamente aliviar o sistema financeiro para outros segmentos.
Além disso, há expectativas de cortes graduais na Selic até o fim do ano. O mercado trabalha com a projeção de uma taxa entre 9,25% e 9,50% em dezembro, o que pode facilitar a retomada do crédito em 2026.
O que você pode fazer agora
Enquanto isso, a recomendação para lojistas e gestores é:
- Manter fluxo de caixa sob controle
- Evitar estoques excessivos
- Investir em relacionamento com clientes
- Trabalhar margem com rigor
- Buscar fornecedores flexíveis e parceiros locais
Quem conseguir crescer com pouco crédito hoje estará ainda mais forte quando o ciclo de corte de juros se consolidar.
Conclusão
O varejo brasileiro vive um momento contraditório: o consumidor voltou, mas o dinheiro para sustentar a expansão ainda é escasso. A boa notícia é que há caminhos alternativos sendo trilhados, e empresas que investem em inteligência, criatividade e gestão sólida estão encontrando formas de crescer mesmo com restrições.
A expansão vai chegar. E quem estiver preparado desde agora vai liderar essa nova fase do varejo em 2026.








